Os portais precisam se reinventar
28 de novembro de 2000, 0:00Opinião: diante de um modelo baseado em publicidade e comércio, onde a conta não fecha, o portal poderá encontrar um caminho pela via da interação e personalização – até poder cobrar, quem sabe.
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Lembro–me de quando surgiram os portais horizontais. Eram, em sua maioria, sites de provedores ou mecanismos de busca, dotados de ferramentas de pesquisa super úteis para quem queria achar algo na internet. Hoje lembro–me deles e vejo os atuais grandes portais da web, com todo o seu conteúdo editorial e preocupados em provar que são tudo o que um usuário precisa. Mas eles estão errados.
Antes de tudo começar, estes sites tinham um objetivo – ajudar o usuário. Pessoas queriam encontrar informação e eram auxiliadas por mecanismos de busca que respeitavam o que chamo de lei da economia de tempo online, que diz "os usuários exigem acesso rápido e eficaz ao que procuram".
Quando as publicações editoriais mais famosas começaram a vincular seu conteúdo a portais, ocorreu um estímulo ao tráfego nestes sites, que chamou a atenção para a demanda de conteúdo bem produzido. Entretanto, o usuário não pagava por essa produção. Diante disso, os sites apoiaram–se no comércio de espaço publicitário.
De repente, todo o esforço para agregar agilidade às interações do internauta foi subjugado pela necessidade de prendê–lo ao site e a venda de mídia tornou–se o objetivo final dos portais horizontais. Como num devaneio coletivo, esqueceram–se da finalidade essencial que os sites têm para o usuário: são centros de apoio à busca de informações. É claro que o conteúdo editorial é importante, mas a web é muito maior do que os canais do portal; adotar uma postura promocional de "tudo de interessante está aqui" é uma proposta ilusória. Vejamos alguns fatos:
Primeiro: depois da insistência, ficou comprovado que a receita publicitária não sustenta a operação dos portais. Além disso, a publicidade online vêm encontrando desinteresse por parte do público, que hoje clica muito menos em banners do que três anos atrás (as taxas de click through caíram em média de quase 4% para mais ou menos 1%).
Segundo: a aposta no comércio eletrônico como fonte compensatória para suas estruturas comerciais não vai ser capaz de transformar os sites horizontais em bons negócios rapidamente, porque:
a) as pessoas ainda impõem resistência à prática, por desconfiança ou por achá–la desnecessária;
b) estimular a compra online "por esporte" contraria a realidade econômica brasileira;
c) a penetração da internet ainda é pequena;
d) os gastos com a produção editorial não vão deixar de existir, portanto, sempre existirá um desequilíbrio entre custos e rendimentos dos portais.
Terceiro: com a experiência, o usuário de internet passa a pesquisar mais em ferramentas de busca e a usar atalhos para chegar ao que considera realmente interessante, contrariando a idéia de que será possível mantê–lo preso em forma de audiência, um conceito aliás trazido impensadamente da comunicação de massa.
Diante disso, estes sites enfrentam a necessidade de compensar suas próprias operações, ou correrão o risco de sumir do mapa. Está na hora do modelo de portal horizontal ser reinventado. O que é produzido com investimento em qualidade deve ser pago e as pessoas podem estar gradativamente tornando–se dispostas a pagar por qualidade de conteúdo, como pesquisas recentes sugerem.
Mas esta qualidade está muito associada à personalização progressiva e facilitada, ao apoio na resolução de problemas – o que exigirá uma revolução nos projetos de interface dos portais.
As interfaces existentes hoje são expositivas demais e interativas de menos. O portal deveria ser um site onipresente e transparente, carregado de ferramentas de auxílio à navegação, criação de atalhos e serviços de conteúdo personalizado. Não haveria mídia segmentada, mas mídia interativa personalizada, que indicaria novas opções de conteúdo à medida que o interesse do internauta surgisse. Sem invasão, somente apoio. O dia em que isto acontecer, o uso dos portais pelos usuários será justificável.
É importante lembrar que, em um mundo baseado em liberdade de acesso, a verdadeira briga é para ser o melhor amigo do internauta e não o dono dele. [web insider]

