Webinsider

Negócios

A copa do mundo é nossa

17 de outubro de 2000, 0:00

Design: o brasileiro é show fazendo banners, mas para ser campeão mundial precisa manter a mesma energia na arquitetura de sites gigantescos, aqueles que vêm depois do clique.

Por Nenhum

Mauro Cavalletti

Sempre fomos criativos, quanto a isto não resta dúvidas. Faz parte de nossa cultura ancestral contar como driblamos a falta de técnica com soluções incrivelmente inusitadas nas mais diversas situações históricas. Sempre soubemos disto. E, desde sempre, a curta tradição de nosso design foi assim – a necessidade de inventar a roda de novo toda vez que um trabalho aparece premiou os brasileiros com uma sede insaciável de novidades e uma atitude quase paranóica de buscar a satisfação somente no melhor resultado.

Acontece agora na mídia interativa que o Brasil começa a ter reconhecimento formal nos concursos, festivais, órgãos de classe e outros agitos criativos mundo afora. Recentemente levamos o maior número de prêmios deste setor, no prestigioso Festival de Cannes. Foi uma grande goleada e não foi a única.

Como já estou há dois anos suficientemente distante dos grupos criativos brasileiros, peço licença para tratar deste assunto como quem olha meio de dentro e meio de fora.

A excelente performance dos criativos brasileiros nos eventos internacionais acabou levando o grande premiado deste ano em Cannes, PJ Pereira, a lançar a provocação bombástica de que os americanos (sempre eles) teriam de rever seu processo criativo a partir de então.

Mestre Pereira sabe o que faz. Como um dos mais premiados criativos do mundo nesta área, tem o direito de lançar este petardo malvado nas cabeças gringas. Nota dez nos trabalhos e mais dez extra por ter sabido colocar as coisas desta maneira no momento exato. Muita gente do nosso meio, por conta disto tudo, assumiu que nossos designers, assim como nossos japoneses, são mais criativos que os outros. A coisa não é bem assim.

Somos criativos sim, entre os melhores do mundo, mas isto não tem a ver somente com o design nacional. Pelo menos não como a maioria dos designers que conheço pensam que tem. Olhando a formação do time dos criativos brasileiros vamos ver no primeiro grupo caras como o próprio PJ, Bob Gebara e Fernand Alphen, que antes da web não eram designers no sentido estrito da palavra. Os dois últimos, na verdade, eram reconhecidos redatores nas vidas passadas.

Estes são caras geniais que entenderam onde estava o buraco desta coisa da internet e mandaram ver. Um dos maiores méritos deste pessoal foi virar o paradigma da dupla de criação das agências de cabeça para baixo, gerando os grupos criativos multi (in) disciplinares, que geraram resultados diferenciados, que geraram prêmios, que geraram reconhecimento internacional. Agora eles estão entre os maiores designers da nova mídia. Dá para entender a confusão?

Pois aí está um dos detalhes mais interessantes na criação brasileira: a diversidade das referências dos nossos profissionais. Na maioria das vezes, os diretores de criação norte–americanos são designers visuais. Em muitos casos vejo uma certa resistência em experimentar diretores que dominem outras linguagens. Agora olhando de dentro, acho mais difícil para eles quebrarem os paradigmas porque isto implica em detonar os próprios pilares. Falo dos designers, não dos americanos.

Na falta de escolas e de profissionais de design em número suficiente, no Brasil o espaço foi ocupado também por redatores, fotógrafos, arquitetos, diretores de vídeo, cinema e por aí vamos em frente. Fico me perguntando se a complexidade que os brasileiros conseguem colocar no espaço reduzido de um banner não tem a ver com isso. Acho que sim. Ser criativo no limite de 468 X 60 pixels pede muita energia, muito repertório e um poder de síntese fenomenal.

Na minha opinião somente atingimos este ponto por ter entendido o design muito além das soluções gráficas. Parece óbvio, mas não é. Também não é novo: fala–se disto há pelo menos 10 anos. Acontece que esta mídia evolui rápido e no ecossistema criativo quem apresentar as melhores soluções para as proposições mais básicas, leva a melhor.

Ultimamente, mais que sobrevivendo, estamos dando um show, mas vamos segurar um pouco a onda por que a vida continua. Se na modalidade banners o Brasil está ganhando o jogo, o campeonato ainda não acabou. Ainda tem muita complexidade, conceito e design para serem colocados num site, aquele treco que vem depois do banner.

A copa do mundo é nossa – parte 2

Na primeira parte deste texto, tratei de dar meus palpites no significado de tanta premiação para a criatividade brasileira no circuito internacional. Disse acreditar que a incorporação de outras disciplinas no mesmo nível que o design gráfico em nossa mídia interativa é um dos fatos mais importante na geração de resultados tão criativos.

Os banners brasileiros, complexos, espertos, bonitos e esbeltos, têm feito tanto sucesso nos festivais quanto nossas supermodels nas passarelas. Tem alguma coisa nova na maneira que fazemos a coisa e se ainda não tem muita gente olhando para isto, o panorama começa a ser modificado.

Por outro lado, acho que não dá para ficar empolgado e parar por aí. Um dos personagens da primeira parte deste texto, Bob Gebara, o jurado brasileiro no Festival de Cannes, enquanto ainda comemorava a performance, cobrou a continuidade dos trabalhos, em entrevista para a Revista About.

Insatisfeito, queria ver os brasileiros detonarem nos sites também. Vamos ouvir o que ele tem a dizer, porque sua opinião vem acompanhada de um impecável portfólio e da experiência de quem julgou trabalhos nos maiores festivais do Planeta. O Bob viu muita coisa, sabe o que fala e está pedindo atenção.

De maneira nenhuma está–se diminuindo os louros nacionais, conquistados as duras penas e a base de muita diversão, tenho certeza. Somente estou chamando a atenção para os casos de design onde temos muito, muito mais conteúdo, mensagens, conceitos e objetivos para atender do que os que podemos conter em um banner.

Aí, meus amigos, a coisa pega para valer. Será que dá para colocar nos sites a mesma complexidade que estamos mandando nos banners? Vamos pensar um pouco no que vem depois do clique. Garanto, por experiência própria que a coisa vai ficando cada vez mais difícil quando o desafio é tentar manter a mesma energia em sites gigantescos, com milhões de documentos dentro e equipes com dezenas de designers trabalhando juntos. Pior ainda é manter a coerência do trabalho, a consistência da navegação e o usuário dentro do site numa situação destas.

Neste ponto, precisamente, muitas companhias de design norte–americanas entenderam que seria preciso continuar com a bola para frente e diversificaram um pouco a disciplina. Sejam chamados arquitetos de informação ou designers de interação, as empresas que estão cumprindo com os melhores resultados têm gente pensando cada clique e cada tela daexperiência do usuário de um site. Ou pelo menos tentam, porque o trabalho não é nada fácil.

Venho acompanhando a evolução deste conceito no Brasil há vários anose acredito que ainda temos muito que aprender, gregos e troianos. Principalmente por que um site é uma coisa bastante orgânica no meu ponto de vista, e como tudo que é vivo vai evoluindo, se conformando, se alimentando de idéias. Do mesmo jeito que o uso de um site sugere a próxima jogada, conceitos brilhantes morrem muito cedo quando mal desenhados. Tudobem, falaremos disto em uma próxima oportunidade.

De qualquer maneira serve para ilustrar a discussão: conheço arquitetos de informação geniais no Brasil, mas isto não resolve a questão, uma vez que a maior parte das empresas e clientes de mídia interativa brasileiros nem conhece sua demanda por estes profissionais. Então fico pensando: se não existimos como podemos ser melhores que os outros?

Deixando a empolgação com o produto nacional um pouco de lado, tive a sorte de trabalhar nestes dois últimos anos, com designers japoneses, coreanos, europeus de todos os cantos e até mesmo africanos. Também trabalhei com brasileiros e americanos. Também tem muita gente talentosa fora do Brasil, podem acreditar. [web insider]

Sobre o autor

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: Nenhuma palavra-chave foi encontrada!

Comentários

Ninguém comentou o artigo "A copa do mundo é nossa"

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Webinsider