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Em defesa do acesso gratuito

10 de outubro de 2000, 0:00

Se a TV demorou anos para sair do vermelho, por que a internet tem a obrigação de ser lucrativa em muito menos tempo?

Por Nenhum

Alvaro de Castro

No início do ano publiquei um artigo intitulado "Obrigado, Bradesco!", no qual agradecia ao banco pela iniciativa então inédita de oferecer acesso limitado porém gratuito à web. O Bradesco não estava sendo altruísta (a última coisa que qualquer banco é), mas sem querer dava a largada para um processo irreversível que certamente mudaria o mercado de internet no Brasil.

Dois dias depois o Ig anunciou sua entrada no mercado e hoje afirma ter mais de 1,2 milhões de usuários. O país passou de 3,3 para 4,1 milhões de usuários em apenas dois meses e, finalmente, a internet perdeu boa parte da pecha de ser coisa de rico, algo que ainda vemos em outras mídias como a TV paga.

Por outro lado estamos vendo uma quebradeira de empresas de acesso gratuito e o modelo questionado. Primeiro a Tutopia demitiu seu setor de conteúdo por não poder pagar os salários. Duas semanas atrás foi a Super11, que chegou ao ponto de mudar os miolos das portas da empresa temendo que funcionários descontentes carregassem micros para casa. Agora a NetGratuita afirma que o modelo não é rentável e portanto oferecerá acesso gratuito para seus cadastrados por somente mais dois meses.

Oferecer acesso gratuito em um mercado que somente se livrou das amarras monopolizantes da Embratel há apenas dois anos atrás é querer pagar contas altíssimas por larguras de bandas medíocres e suporte idem. A Embratel ainda controla 80% do tráfego nacional de internet e a incipiente concorrência ainda não conseguiu se estabelecer para oferecer serviço rápido e barato.

Por outro lado temos o próprio mercado, que obriga a contratar mão de obra a preços elevados e mesmo assim a perde para a concorrência. Finalmente, temos o próprio negócio, ainda se consolidando e sujeito a dúvidas de clientes e investidores que, em primeira e última análise, o mantém.

Todas as mídias quando começaram eram deficitárias e dependiam quase que exclusivamente de propaganda. Já a internet permite que muitos outros serviços sejam oferecidos, criando assim novos canais de faturamento. Porém, até que sejam descobertos, a principal forma de se faturar com acesso gratuito é oferecendo propaganda. Isto cria por si outro problema, a falta de fidelização do cliente para com o fornecedor, o que atrapalha a veiculação de mensagens. Assim, mesmo o modelo de propaganda online é falho.

Lembro ter lido faz uns meses em uma revista de negócios brasileira a bobagem de que os investidores agora exigem break even em até dois anos. Com essa precária infra–estrutura e custos altíssimos, como alguém pode imaginar sair do vermelho nesse período? Ora, a própria MTV precisou de oito anos para se tornar rentável no Brasil, que hoje é o seu segundo maior mercado no mundo.

A própria televisão precisou de 14 anos para se estabilizar no Brasil. Assim, porque a internet seria diferente? Quando entenderem que a web é apenas mais uma mídia e não uma panacéia para se fazer dinheiro fácil (atitude que, aliás, acabou gerando a bolha da Nasdaq que todos bem conhecemos) é que passaremos a ter um mercado sólido e rentável. No caso da NetGratuita, acredito que se precipitaram após perceberem que bastou colocarem esse serviço no ar que as contas, que finalmente tinham entrado no azul, voltaram ao vermelho. Não é de surpreender, se considerarmos os fatores que mencionei…

Assim, fica o recado: querer faturar agora em cima de acesso gratuito, com custos enormes e um modelo de negócios ainda em desenvolvimento, é passar a faca na galinha sem esperar nem para ver se os ovos são de ouro.

O jeito é parar de ler revistas e esperar uns bons oito anos, assim como a MTV esperou. Até lá o custo do link terá baixado a patamares de primeiro mundo e haverá suficientes executivos no mercado para não ter que se pagar salários astronômicos. O próprio modelo já estará bem testado e aprovado. Nesta guerra, ganhará quem tiver mais paciência e, como dizem os americanos, "deeper pockets". [web insider]

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