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O vale tudo das mensagens instantâneas

14 de julho de 2000, 0:00

Odigo conseguiu ser compatível com ICQ mas trava uma luta de guerrilha contra o AIM.

Por Nenhum

Paulo Rebêlo

Anos atrás, a expressão "guerra dos browsers" retratava a concorrência entre os navegadores web, à época restritos ao líder Netscape Navigator e ao emergente Internet Explorer, da Microsoft.

A guerra agora é outra e não envolve apenas dois programas, mas vários. Trata–se dos utilitários de mensagens instantâneas (instant messaging, ou IM), aqueles programinhas que avisam quando um amigo está online e permitem a troca de arquivos, as conversas em tempo real e o envio de mensagens rápidas.

Daí o nome "instantâneo", pois o receptor recebe o recado imediatamente se estiver conectado à Internet. Exemplos conhecidos são ICQ, MSN Messenger, Yahoo Messenger, AOL Instant Messenger, Odigo e MyCQ.

No caso dos clientes de e–mail existem dezenas de opções, mas poucas se salvam e mantêm a liderança, como Outlook Express, Eudora e Pegasus, este bem menos conhecido do grande público. Com os IM, a situação não é diferente. Mas há um porém.

David e Golias

Em janeiro, um pequeno e desconhecido programa para trocas de mensagens rápidas pela internet começou a fazer sucesso. O Odigo, sem funções mirabolantes, simplesmente apresentava algo que até então nenhum outro conseguira – a compatibilidade com o ICQ, o mais usado e conhecido programa para mensagens instantâneas.

Ao instalar o Odigo, o usuário pode aproveitar todos os seus atuais contatos do ICQ dentro do próprio Odigo. Quem preferir o Odigo pode esquecer o ICQ.

Em junho, o Odigo deu mais um passo: apresentou uma versão atualizada, compatível com o AOL Instant Messenger (AIM), talvez o segundo utilitário mais usado do gênero, atrás apenas do ICQ.

Era tudo o que os usuários queriam – reunir funções do ICQ, AIM e Odigo em uma interface única. Em menos de uma semana, o Odigo ganhou mais 100 mil usuários e hoje contabiliza 800 mil usuários cadastrados, segundo nos afirmou Avner Ronen, vice–presidente de desenvolvimento estratégico da empresa.

De acordo com o próprio Roner, é um número pouco expressivo comparado aos milhões do ICQ ou AIM. Mas é significativo, considerando o pouco tempo de mercado e a escassa publicidade do programa.

Dez dias depois de apresentada, a America Online bloqueou, sem aviso prévio, a "interoperabilidade" entre Odigo e AIM. Em um sábado a noite, os usuários do Odigo se viram ilhados, sem poder entrar em contato com quem estivesse do outro lado usando o AIM. A medida poderia cair na mediocridade da competição comercial se diversas empresas da concorrência não tivessem saído em defesa do Odigo contra a AOL. O motivo? Simples. Todas já haviam tentado apresentar compatibilidade com o AIM e também foram bloqueadas pela America Online, sem margem à conversas.

Microsoft, Yahoo, AT&T, CMGI, Prodigy e outras tiveram seus sistemas de mensagens bloqueados pela America Online, que alegou "quebra de privacidade a seus usuários".

Ao bloquear o Odigo, a AOL terminou enfrentando a revolta dos concorrentes na imprensa americana. A quantidade de artigos publicados em revistas, jornais e portais importantes foi tão grande que os próprios concorrentes saíram publicamente em defesa do Odigo – e, consequentemente, contra as medidas da AOL.

O confronto

Mais de um mês se passou desde o bloqueio e as tentativas de conversa ou acordo de licença por parte do Odigo foram em vão. A America Online não respondeu as chamadas de Avner Ronen e divulgou nota à imprensa alegando que continuaria impedindo o acesso ao AIM por outros programas. Na ocasião, a AOL divulgou que os usuários registrados do AIM teriam alcançado a marca de 91 milhões – apesar de ninguém acreditar muito nesse número.

Quando todos esperavam que a poeira fosse baixar e que o Odigo se conformasse, como fizeram os concorrentes, o inesperado aconteceu. Na página oficial do Odigo foi disponibilizado um patch (correção) para burlar o bloqueio da America Online e trazer de volta a compatibilidade com o AIM.

Estava declarada, publicamente, a guerra. E com o respaldo, mesmo que tímido, de outras empresas. No mesmo dia, a AOL bloqueou novamente e, no dia seguinte, um novo patch foi posto à disposição dos usuários do Odigo… e o bloqueio–desbloqueio por parte das empresas continua até os dias de hoje. A Odigo coloca quase diariamente um novo patch contra os seguidos bloqueios da AOL. Tempos atrás os concorrentes tentaram o mesmo, mas desistiram ao perceber que a AOL não iria parar com os bloqueios, nem ceder uma licença, muito menos tentar um acordo pacífico.

O que parecia ser apenas um conflito de interesses comerciais transformou–se em uma disputa quase pessoal entre a America Online, um dos maiores e mais ricos empreendimentos de informática e internet, e a Odigo, pequena empresa de apenas 80 funcionários, com sede em Nova Iorque e equipe de pesquisa e desenvolvimento em Herzliya, Israel.

Com a repercussão, a America Online divulgou a proposta de estabelecer um padrão universal para os programas de troca de mensagens instantâneas, para que todos pudessem se comunicar entre si. Entretanto até agora existe apenas a idéia (antiga, por sinal) e nada de concreto. Há mais de um ano a America Online divulga planos de padronizar os IM mas ninguém viu nada de concreto até agora.

Contactado por telefone, Avner Ronen garante que a compatibilidade com o AIM continuará existindo enquanto estiver à frente da empresa. Ele espera que a AOL responda aos pedidos de conversa e aceite a compatibilidade, não apenas com o Odigo, mas com quem queira criar novos programas de mensagens instantâneas. Segundo Ronen, apesar de pequena e pouco conhecida, a Odigo conta com programadores que conseguem gerar código (e burlar código) mais rápido do que fazer press releases. Quantas vezes a AOL bloquear o Odigo uma nova correção estará disponível.

Enquanto isso, os usuários do Odigo já podem desfrutar da compatibilidade também com o Yahoo Messenger, em atualização que já pode ser baixada do site. Resta saber se a Yahoo também irá bloquear o acesso ou justificar seu apoio ao Odigo. [web insider]

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