05 de julho de 2000, 00:00
Problemas e erros de avaliação complicam o caminho das empresas de internet brasileiras.
Na compreensão geral, a empresa pontocom em pouco tempo deixou de ser um negócio incrível e se tornou um símbolo de desperdício de dinheiro.
Pagam justos e os pecadores. Muitas empresas que estavam no caminho do lucro estão sendo contestadas. Como diferenciar as que estão indo para a frente das que estão indo para o brejo? Um bom começo é conferir se na sua empresa estão sendo cometidos erros de avaliação e se são boas as soluções para problemas básicos que ameaçam.
1. O cliente não é o investidor
Somente quem já lidou com investidor sabe o quanto ele pode ser "maria vai com as outras", exigindo da empresa uma série de serviços e vantagens que pouco ou nada acrescentam ao cliente, apesar do alto custo.
Todo mundo fala em B2B? Então vamos converter esta empresa B2C em B2B! A moda é agora CRM? Então vamos integrar o site com o sistema da Siebel! þI SAP? Venha então SAP! Ele é o investidor, então vamos fazer o que ele manda!
Como os empresas pontocom possuem mais de um investidor, que geralmente não se entendem, o que um manda fazer o outro desmanda. E a pobre pontocom fica sem saber a quem seguir. Na dúvida, segue o que investiu mais, independente se é ou não a melhor estratégia.
2. Confiar na receita de banners
þI um erro comum em empresas sem foco de receita definido, ou que oferecem um serviço que a concorrência já oferece sem custo algum. Assim, na falta de uma maneira clara e consistente de se cobrar, acham que a receita com banners pagará os custos.
Pergunte ao dono de uma revista de baixa tiragem o quanto ele está fazendo em anúncios – muito pouco, ele dirá. E se este mesmo dono tiver muitos concorrentes, a situação será inviável.
A mesma coisa acontece com a mídia web: somente grandes portais e sites de enorme audiência podem pagar parte ou a totalidade dos seus custos com a venda de espaço publicitário. Sites de menor porte não possuem acessos suficientes, não têm uma verificação isenta de seus números e nem sistemas azeitados de rolagem de banners e contagem de hits, o que os torna pouco atraentes para o anunciante.
3. Salários altos demais
Pergunte a um típico editor de jornal se está satisfeito com seu salário e vai ouvir uma gargalhada. Pergunte a um típico editor de um portal sobre seu salário e ele vai reclamar que é pouco para comprar uma BMW e que por isso teve que se contentar com um Accord.
Claramente temos uma enorme brecha salarial aqui. Por que isso, se ambos têm mais ou menos os mesmos cargos e funções? Porque na web há escassez de gente competente para tantos projetos. A solução é pagar salários altos.
Isto tem uma data para terminar: daqui a um ou dois anos, quando o mercado estiver saturado de recém–formandos de inúmeros MBAs de e–commerce. Até lá, o melhor é tentar pagar com stock–options e oferecer ambientes empresariais bacanas, de forma a compensar salários não tão bacanas assim. E rezar para que o profissional não seja chamado por outra pontocom, obrigando a empresa a aumentar seu salário mais uma vez para mantê–lo.
4. Salas lindas
Para o público não importamuito o endereço real da empresa pontocom. O cliente só conhece a URL e isto é mais do que suficiente. Porém, aqui encontramos de certa maneira o mesmo problema de concentrar esforços para impressionar possíveis investidores, com salas em prédios elegantes decoradas por escritórios de griffe.
Se depender de custos muito altos, a aparência não precisa ser tão linda assim. O custo mensal de salas lindas costuma ser o segundo maior da empresa, atrás apenas dos salários.
E, para piorar, não sei porque, quanto mais bonita a sala, mais feio o site! Assim, recomendo realocar custos considerando salas não tão nobres em troca de uma boa reformulação em pontos fracos do site.
5. Equipes que não se entendem
Toda empresa pontocom sofre com a falta de mão de obra qualificada. Convenhamos, o brasileiro médio só tem 3,8 anos de estudo e a internet para dar certo requer uma visão combinada de negócios e de tecnologia, algo raro pois são ramos e visões muito diferentes.
A diferença de visão atrapalha nas relações entre o management e a produção. A gerência quer a coisa feita e freqüentemente esquece o quanto é difícil programar para a net. A produção tem uma grave tendência de escolher plataformas e soluções que pouco ou nada agregam valor ao negócio. O pessoal do design tem que ser contido para não insistir em belezuras de áudio e vídeo que sobrecarregam as páginas. Eles também não entendem bem o pessoal da infra–estrutura, que por sua vez tem ataques de pânico quando ouve falar dessas tecnologias.
Assim, temos os que querem dinheiro, os que querem bits, os que querem beleza e os que querem velocidade e protocolo. Uma situação difícil de gerir e que freqüentemente leva a problemas internos.
6. Querer ser "O portal da América Latina"
Investidores tendem a seguir modismos. Um exemplo vem do Chase Manhattan com a Starmedia. Quando estava quase fechando as portas, a Starmedia foi salva pelo banco, um dos maiores do mundo.
E realmente a proposta da Starmedia era ótima para seu tempo: tornar–se "o" portal para a América Latina inteira. E foi graças em boa parte a seu trabalho a região de fato chamou a atenção dos investidores. Agora esse tempo passou e mesmo a Starmedia encontra competição acirrada de outros portais que nasceram tempos depois.
Porém a filosofia ficou e costuma ser aplicada a qualquer pontocom que esteja nascendo. Não importa se o foco da empresa só vale para o país onde nasceu, se o produto não é exportável e que talvez não compense ter instalações em países como o Uruguai, quepossui somente 300 mil internautas.
Moral da história
þI importante fugir dos equívocos, para não investir mal e evitar pontos perigosos. Porém é fundamental entender que a mídia existe e tem tudo para dar certo, independente do capital de risco e todas essas coisas.
Achar que estamos em um túnel sem fim é ter a mesma visão de quem há um ou dois anosachou que a internet seria só um modismo (quantas vezes ouvi isso!). Mas querer fazer dinheiro a partir de premissas falsas é o equivalente a jogá–lo pela janela.
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